Analisamos os dados de 83 programas de Corporate Venture Capital (CVC) que realizaram 586 investimentos nos últimos anos no Brasil ou fora do Brasil por corporações locais. Esse levantamento permitiu mapear o foco, a forma como são geridos, os setores de interesse, as estratégias de coinvestimento e os retornos. Além disso, identificamos tendências importantes, como a presença de fundos profissionais na gestão de alguns programas, a predominância de investimentos feitos em parceria com fundos de Venture Capital (VC), e o investimento em setores não diretamente relacionados à atividade da empresa patrocinadora.
O número de novos programas de CVCs diminuiu drasticamente nos últimos dois anos (Gráfico 1). O auge de entrada das corporações foi no biênio 2021-2022 com 40 empresas realizando o primeiro investimento em startups. Essa dinâmica dialoga com o mercado local de VC, que após anos de recorde de investimentos está mais seletivo em novos investimentos.
Gráfico 1 – Número de CVCs por ano de criação

O Gráfico 2 apresenta a evolução do número de investimentos realizados anualmente pelos CVCs. Entre 2021 e 2023, o número de aportes superou 100 investimentos por ano, correlacionado com a atividade dos fundos de Venture Capital (VC). Em 2024, no entanto, observa-se uma desaceleração, com 79 investimentos.
Gráfico 2 – Número de investimentos realizados CVCs por ano

O Gráfico 3 apresenta os setores investidos pelos CVCs. Fintechs lideram com 24% dos aportes, seguidas por SaaS (11%), Marketplace (9%) e Agtech (7%). Healthtech (7%), Logística (6%), Dados e IA (6%) e Greentech (5%) também se destacam. Energytech e Edtech (4% cada) completam a lista. Outros setores, como Foodtech, Construtech, Proptech e Martech, somam 20% dos investimentos.
Gráfico 3 – Setores das startups investidas pelos CVCs

Alguns programas de CVC parecem ter foco definido, com mais da metade dos investimentos em um único setor. Dez programas focam em fintechs (12% dos programas), sendo que esses programas realizaram 62 investimentos no setor e 17 em outros áreas (Gráfico 4). Outros destaques são Bio/Health (6%), Agro (6%), Educação (5%), Energia (5%) e TI (4%), enquanto 25% têm outros focos. Além disso, 40% dos programas não possuem setor prioritário.
Gráfico 4 – Foco do programa de CVC segundo as empresas investidas

A gestão dos programas de CVCs no Brasil pode ser realizada por gestores profissionais, administrados internamente pelas empresas ou com co-gestão entre um gestor profissional e a empresa. Entre os programas analisados, 40% contam com a atuação de gestoras especializadas como gestoras do programa ou co-gestoras, a maioria dos programas é gerida pelas próprias empresas. Por um lado, o uso de gestores profissionais tende a proporcionar governança, acesso a um pipeline ampliado de startups e maior capacidade de coinvestimento com fundos de VC, enquanto a gestão interna pode oferecer maior alinhamento estratégico, integração com as unidades de negócio, acesso direto a inovação e flexibilidade de alocação.
Os investimentos de CVC no Brasil são majoritariamente realizados em coinvestimento com fundos de VC. Dos 586 investimentos mapeados, 69% ocorreram em conjunto com fundos de VC. Apenas 31% dos investimentos foram realizados de forma independente ou sem a participação de outros investidores institucionais (pode ter a participação de investidores-anjo na rodada), o que indica que grande parte das empresas que operam CVC preferem dividir riscos e acessar oportunidades junto a investidores experientes. Os CVCs se comportam como um ator complementar ao ecossistema tradicional de venture capital, aproveitando sinergias e compartilhando o acesso a startups promissoras. Por outro lado, dado que a maior parte dos fundos de VC tende a investir em empresas com baixo nível de inovação tecnológica (investem em poucas deep techs), significa que CVCs acabam não investindo em empresas que podem ser realmente inovadoras.
Quinze CVCs realizaram investimentos diretos em fundos de VC, essa estratégia amplia o alcance dos investimentos, traz diversidade ao pipeline de startups e aproveita a expertise de gestoras especializadas, ajudando a reduzir riscos e diluir a exposição. Entretanto, as empresas perdem parte relevante do controle sobre o tipo de startup que será apoiada. Dessa forma, diminuem as chances de que os investimentos gerem sinergias com o core business da empresa.
A análise das estratégias de alocação revelou três perfis distintos de investimento: 1) Tradicional, com a maioria dos aportes realizados em parceria com gestoras de VC consolidadas (que captaram pelo menos três fundos); 2) Inovador, com o predomínio de investimentos junto a gestoras de VC mais novas; e 3) Independente, onde o CVC é o único investidor institucional na maioria dos seus investimentos. Entre os programas analisados, 44% têm perfil inovador, 15% tradicional, 36% independente e 5% não se encaixam em um único perfil.
Os investimentos dos programas de CVC mostram uma busca por oportunidades além da atividade principal: 34% dos aportes foram direcionados a empresas que não possuem relação direta com a atividade principal do CVC, o que pode indicar interesse em explorar novos mercados. Contudo, essa estratégia pode ter falta de sinergia ou gerar dispersão do foco, reduzindo o valor gerado pelos investimentos. Quando existe uma pressão por resultados financeiros do programa, este tipo de programa pode ter maior probabilidade de ser descontinuado por menor aderência ao plano estratégico da empresa.
Existe um movimento de internacionalização dos investimentos, onde 4,5% dos aportes foram feitos fora da América Latina, sendo os segmentos de hardtech e deeptech os que mais atraíram capital. No Brasil, apenas duas startups de deeptech foram investidas pelos CVCs, o que reforça o desafio de encontrar startups nacionais de base científica e tecnológica avançada.
Apesar do forte crescimento dos CVCs nos últimos anos, muitos reduziram ou paralisaram suas atividades recentemente. Apenas 36% realizaram investimentos em 2024 e 2025, indicando atividade contínua (Gráfico 5). Outros 36% têm status incerto, pois não investiram além de 2023. Por fim, 28% estão inativos ou com atividades reduzidas, com últimos aportes até 2022.
Gráfico 5 – Ano do último investimento de cada CVC

A análise da distribuição de retornos dos fundos de CVC no Brasil, com base em dados da CVM para 32 fundos, oferece um panorama sobre a performance atual desses investimentos. A taxa interna de retorno (TIR) média dos fundos é de -10%, sendo a mediana de -12% e top quartil com retorno de 2%. O Gráfico 6 revela que 72% dos programas apresentam TIR negativa. Entre os fundos com retorno positivo, apenas 10% alcançaram retornos na faixa de 25% a 50%. Fundos com menos de três anos representam 30% da amostra e, embora possam estar sofrendo os efeitos negativos iniciais típicos da curva J, eles não explicam integralmente os resultados observados.
Gráfico 6 – Taxa interna de retorno dos fundos de CVC

O Gráfico 7 apresenta a distribuição da TIR para 173 investimentos. Os dados foram coletados nas demonstrações financeiras disponíveis na CVM. São poucos os dados de saídas, assim optamos por apresentar o retorno das marcações conjuntamente ao dos desinvestimentos. Classificamos os dados em três grupos: 1) co-investimento com VCs tradicionais; 2) co-investimento com VCs mais novos; e 3) investimentos independentes.
Os investimentos independentes têm a menor proporção de TIR negativa, com apenas 25%. No entanto, apenas 10% das startups atingem TIR acima de 25%, a menor proporção entre os três grupos. Este dado é uma evidência de que o perfil de risco e retorno dos investimentos independentes é diferente dos outros investimentos.
Co-investimentos com VCs tradicionais e jovens têm distribuição similar: 6% dos investimentos geraram retorno acima de 50% e entre 11 e 12% ficaram entre 25% e 50%. Nos casos de TIR negativa, ambos os grupos ficaram próximos a 33%. Os co-investimentos com VCs jovens apresentaram 5% de write-offs, enquanto os co-investimentos com tradicionais ainda não tiveram write-offs.
Gráfico 7 – Taxa interna de retorno (TIR) dos investimentos dos CVCs

O Gráfico 8 apresenta a distribuição do múltiplo sobre o capital investido (MOIC) dos 173 investimentos. Os co-investimentos com VCs jovens apresentaram 3% dos deals com múltiplo acima de 10x e outros 3% com múltiplo entre 5 e 10x. Enquanto, 11% dos co-investimentos com VCs tradicionais estão com múltiplo entre 5 e 10x. Os independentes apresentam apenas 4% dos investimentos com múltiplo acima de 2,5x. A análise dos múltiplos evidencia que os investimentos independentes seguem um perfil distinto, provavelmente mais focado no retorno estratégico para o CVC do que em retorno financeiro.
Gráfico 8 – Múltiplo sobre o capital investido (MOIC) dos investimentos dos CVCs

Os programas de CVC não precisam ter um objetivo financeiro, sendo muitas vezes orientados por uma estratégia de inovação e fortalecimento da atividade principal da empresa investidora. Identificamos 23 startups que foram investidas por um CVC e posteriormente adquiridas pelo mesmo CVC, demonstrando um movimento de incorporação de tecnologias e competências. Foram mapeados 14 write-offs e 31 saídas de startups vendidas para outras corporações. Assim, 34% das saídas foram para as patrocinadoras dos CVCs, sendo 4% do total dos investimentos.
Os programas de CVCs desempenham um papel estratégico ao ajudar empresas estabelecidas a superar fragilidades em inovação interna. Muitas corporações iniciam CVCs quando enfrentam dificuldades em P&D, buscando complementaridade com startups e o ecossistema empreendedor para impulsionar avanços tecnológicos. O ciclo de vida de um CVC envolve a seleção estratégica de startups que possuem conhecimento complementar, permitindo a incorporação dessas inovações à estrutura corporativa. Dessa forma, as empresas investidoras conseguem integrar novas tecnologias e aprimorar seus processos internos. No entanto, esses programas tendem a ser encerrados quando a inovação interna se fortalece e a necessidade de buscar soluções externas diminui.[1]
No Brasil, os CVCs cresceram rapidamente até 2022, mas a criação de novos programas caiu drasticamente a partir de 2023, refletindo um movimento de cautela e reavaliação estratégica. Em 2024, surgiram apenas dois novos programas, o que indica um desinteresse do modelo por parte das corporações e correlaciona com o momento do venture capital nacional.
Por enquanto, poucos programas de investimento apresentaram resultados financeiros positivos. A TIR média é de -10% e a mediana de -12%, indicando dificuldades para gerar retornos satisfatórios. Com 70% dos fundos apresentando TIR negativa e apenas 3% dos investimentos com MOIC acima de 5x, os CVCs tem o desafio de transformar investimentos em resultados financeiros. O relativo alto número de write-offs e retornos baixos, especialmente em investimentos sem coinvestidores experientes, sugere problemas de seleção adversa.
A estratégia de investir em setores fora da atividade principal, embora potencialmente enriquecedora do ponto de vista da diversificação, também tem riscos. A falta de sinergia clara e o alinhamento estratégico insuficiente com os negócios principais das empresas podem resultar em dificuldades para integrar startups adquiridas ou extrair valor real dessas parcerias. No cenário de incerteza do mercado financeiro, é possível que muitos programas de CVC enfrentem desafios nos próximos anos e investimentos fora da atividade principal sejam revistos.
Por fim, algumas empresas iniciaram o processo de descontinuar seus programas de CVC, com a revisão das prioridades nos investimentos dos próximos anos e buscam desinvestir para realocar o capital de forma estratégica.